A última semana deixou claro que o mercado de criptoativos entrou em uma nova fase. Reguladores apertaram o cerco, gigantes financeiros lançaram suas próprias stablecoins e modelos mais transparentes começaram a ganhar espaço em áreas como mercado de carbono e ativos tokenizados.
Nos Estados Unidos, a Securities and Exchange Commission reforçou um recado direto ao mercado: transformar ações, títulos ou derivativos em tokens não muda sua natureza jurídica. Em posicionamento publicado no fim de janeiro, o órgão afirmou que valores mobiliários continuam sujeitos às mesmas leis federais, independentemente de estarem ou não em blockchain.
O regulador também detalhou dois modelos principais de tokenização e alertou para estruturas em que empresas terceiras emitem tokens que apenas “representam” ativos tradicionais. Nesses casos, o investidor pode não ter direitos como voto ou dividendos e ainda ficar exposto ao risco do emissor do token. Para a SEC, o que importa é a realidade econômica do instrumento, não o nome dado a ele.
Na prática, a mensagem é clara: a blockchain muda a forma como os ativos circulam, mas não cria atalhos regulatórios.
Stablecoins entram de vez no radar institucional
Enquanto a regulação avança, grandes players financeiros aceleram sua entrada no universo dos dólares digitais.
A Tether anunciou o lançamento da USA₮, uma stablecoin criada especificamente para operar dentro do novo marco regulatório federal dos Estados Unidos. Diferente do USDT, que atua globalmente, a nova moeda nasce com foco local e institucional, mirando bancos, fintechs e empresas que precisam operar dentro das regras americanas.
Poucos dias depois, foi a vez da Fidelity Investments apresentar sua primeira stablecoin, o Fidelity Digital Dollar (FIDD). Lastreado 1:1 em dólar e operando em blockchain, o ativo marca a estreia direta da gestora nesse segmento e reforça a tendência de aproximação entre finanças tradicionais e cripto.
Com padrões institucionais de custódia e divulgação diária das reservas, o movimento da Fidelity sinaliza que as stablecoins deixaram de ser uma ferramenta restrita ao ecossistema cripto e passaram a integrar a estratégia de grandes casas financeiras globais.
Em outras palavras, o dólar digital começa a ganhar forma dentro do próprio sistema financeiro tradicional.
Brasil eleva o padrão para empresas cripto
No Brasil, o avanço veio pelo lado regulatório. O Banco Central do Brasil publicou a Instrução Normativa nº 701, que passa a exigir certificação técnica independente para empresas que oferecem serviços com criptoativos no país.
A partir de fevereiro, exchanges e prestadoras de custódia precisarão comprovar, por meio de auditoria externa, critérios como segregação de ativos, políticas de segurança cibernética, controles contra lavagem de dinheiro, governança e planos de contingência.
Não basta mais afirmar que uma plataforma é segura. Agora, será preciso provar.
A medida cria um filtro mais rigoroso para quem deseja operar legalmente no mercado brasileiro. Para os usuários, o impacto tende a ser mais transparência. Para as empresas, começa uma fase em que compliance e estrutura real deixam de ser diferencial e passam a ser requisito básico.
Blockchain também avança no mercado de carbono
Outro movimento relevante da semana veio do campo da sustentabilidade. Modelos de Finanças Regenerativas (ReFi), que combinam blockchain com rastreabilidade ambiental, começam a ganhar tração como resposta à crise de confiança em créditos de carbono e fundos ESG tradicionais.
A proposta é simples na teoria, mas ambiciosa na prática: transformar impacto ambiental em ativos auditáveis, com registros imutáveis e verificação técnica, reduzindo fraudes e aumentando a transparência para investidores.
Com grandes biomas e potencial de restauração ambiental, o Brasil surge como um dos países mais bem posicionados para esse novo modelo, que busca direcionar capital para projetos com impacto real, e não apenas promessas de sustentabilidade.
Um sinal claro de maturidade do setor
Somados, os acontecimentos da semana mostram um mercado em transição. De um lado, reguladores deixam claro que cripto não está fora das regras. De outro, instituições tradicionais passam a construir infraestrutura própria em blockchain, especialmente por meio das stablecoins.
Ao mesmo tempo, novas aplicações começam a surgir em áreas como mercado de carbono, reforçando o papel da tecnologia como ferramenta de transparência e eficiência.
Mais do que anúncios isolados, o cenário aponta para uma consolidação do cripto institucional. A fase experimental vai ficando para trás, dando lugar a um ambiente em que regulação, grandes empresas e tecnologia avançam juntos.
Se antes o debate girava em torno do “se”, agora a pergunta passou a ser “como” os ativos digitais vão se integrar, de vez, à economia global.