IA já transforma escolas, mas Brasil segue sem política nacional

Levantamento com mais de 2 mil escolas mostra ganhos no aprendizado, economia de tempo para professores e expõe vazio regulatório do Brasil.

A inteligência artificial deixou de ser promessa futurista e já faz parte do cotidiano de milhões de estudantes ao redor do mundo. Em países como Coreia do Sul, China, Austrália e Estados Unidos, a tecnologia começa a assumir funções centrais do processo educacional, indo além de tarefas pontuais e passando a estruturar modelos completos de ensino.

No Brasil, o movimento também ganhou escala, mas ainda acontece sem diretrizes nacionais específicas.

Essa é uma das principais conclusões do relatório “O Futuro da IA nas Escolas”, produzido pela Teachy, plataforma de inteligência artificial para professores do mundo. O levantamento reúne dados de mais de 2.000 escolas brasileiras e cruza essas informações com políticas educacionais internacionais, revelando um cenário de rápida adoção tecnológica, acompanhado por lacunas regulatórias.

Como a IA já funciona nas salas de aula internacionais

Em mercados mais maduros, a inteligência artificial já é tratada como parte estrutural do ensino.

Na Coreia do Sul, o Ministério da Educação lançou os chamados “AI Digital Textbooks”, livros didáticos inteligentes que se adaptam ao ritmo e ao desempenho de cada aluno. O conteúdo muda conforme as respostas, oferecendo exercícios personalizados, reforços em pontos fracos e desafios adicionais para quem avança mais rápido.

Nos Estados Unidos, escolas como a Alpha School adotaram um modelo híbrido. Plataformas adaptativas conduzem parte do aprendizado acadêmico, enquanto o professor assume um papel mais próximo do de mentor, focando no desenvolvimento socioemocional, na orientação individual e no acompanhamento do progresso.

Austrália e China foram além e criaram frameworks nacionais para orientar o uso responsável da IA, desde o currículo até a formação docente, estabelecendo parâmetros claros sobre ética, privacidade e aplicação pedagógica.

IA nas escolas brasileiras já é realidade, mesmo sem política nacional

Embora ainda não exista uma política específica para inteligência artificial na educação, o Brasil já vive uma implementação prática em larga escala.

Segundo o relatório da Teachy, sistemas automatizados operam hoje diretamente o fluxo de trabalho de professores em diversas redes. Um exemplo é o programa Redação SP, da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, que utiliza IA para corrigir textos de mais de 570 mil alunos, do 5º ano do Ensino Fundamental ao 3º do Ensino Médio, em todas as regiões paulistas.

A tecnologia avalia milhões de questões discursivas por mês, um volume que equipes humanas dificilmente conseguiriam processar no mesmo ritmo. O resultado é a redução de gargalos históricos e a devolutiva mais rápida aos estudantes, alinhada ao tempo real da aprendizagem.

“A IA já está na sala de aula, a discussão agora é como usá-la com intencionalidade. Os países mais avançados colocaram formação docente e diretrizes claras no centro. O Brasil tem a chance de fazer o mesmo e garantir que cada hora recuperada se transforme em impacto real na aprendizagem”, afirma Pedro Siciliano, CEO da Teachy.

Professores apoiam a tecnologia e relatam economia de até 16 horas por semana

Um dos dados mais relevantes do levantamento é a aceitação da inteligência artificial por parte dos educadores brasileiros. Quase 80% dos professores apoiam o uso da IA, sendo que 22% concordam totalmente com a adoção e 53% se mostram favoráveis.

Na prática, o ganho de tempo é significativo. Em média, os docentes economizam cerca de 15 horas semanais com atividades automatizadas, como correção de exercícios, elaboração de materiais e avaliações. O número varia conforme o nível de ensino:

No Ensino Médio, a economia chega a 15,3 horas por semana.

No Ensino Fundamental II, 15,7 horas.

Na Educação Infantil, 16 horas.

No Ensino Fundamental I, 16,1 horas.

Esse tempo recuperado costuma ser redirecionado para planejamento pedagógico, acompanhamento individual dos alunos e atividades que exigem interação humana.

Impacto direto no desempenho e no engajamento dos estudantes

Os reflexos também aparecem nas métricas de aprendizagem. O relatório aponta um aumento médio de 81% nas notas dos alunos e um engajamento 77% maior em turmas que utilizam ferramentas baseadas em inteligência artificial.

Além disso, a personalização do ensino ajuda a atender diferentes ritmos de aprendizado, algo difícil de escalar em salas cheias.

Para explicar de forma simples, é como se cada estudante tivesse um tutor digital ajustando o conteúdo ao seu nível, enquanto o professor ganha mais espaço para orientar, motivar e aprofundar discussões.

A IA como ferramenta de inclusão educacional

Outro ponto central do estudo é a acessibilidade. Segundo os professores entrevistados, os maiores beneficiados pelo uso da IA são justamente os alunos que enfrentam mais dificuldades.

Quando questionados sobre quais grupos percebem maior impacto positivo, 36% apontaram estudantes com dificuldades de aprendizagem. Outros 25% observaram melhora em alunos considerados medianos. Para 20%, todos os alunos se beneficiam. Já 11% citaram estudantes de alto desempenho, enquanto 9% não perceberam diferenças relevantes.

O dado reforça o potencial da tecnologia como ferramenta de redução de desigualdades, ao oferecer suporte extra para quem mais precisa.

Falta de diretrizes abre espaço para o Brasil liderar a próxima etapa

Apesar dos avanços práticos, o Brasil ainda não conta com uma política nacional específica para inteligência artificial na educação. Hoje, documentos como a BNCC oferecem apenas uma base conceitual, sem orientações operacionais sobre uso pedagógico, formação docente ou governança da tecnologia.

Enquanto isso, países como Coreia do Sul, China e Austrália já trabalham com estruturas oficiais.

Para especialistas, esse vácuo regulatório representa tanto um risco quanto uma oportunidade. O risco está na adoção fragmentada, sem critérios comuns. A oportunidade é construir um modelo próprio, alinhado à realidade brasileira, que coloque professores no centro do processo e utilize a IA como aliada da aprendizagem.

O relatório da Teachy deixa claro que a tecnologia já chegou às escolas. Agora, o desafio é transformar essa presença em estratégia, garantindo que inovação caminhe junto com qualidade, equidade e resultados concretos para alunos e educadores.

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