O crime envolvendo criptoativos atingiu um novo patamar em 2025. Dados recentes da Chainalysis mostram que endereços associados a atividades ilícitas receberam ao menos US$ 154 bilhões (cerca de R$ 830 bilhões) ao longo do ano, o maior volume já registrado. O número não apenas representa um salto expressivo em relação a anos anteriores, como também sinaliza uma mudança estrutural no perfil do criptocrime, cada vez mais organizado, profissional e conectado a interesses geopolíticos.
Apesar de o volume ilícito ainda ser pequeno quando comparado ao tamanho total da economia cripto, a tendência chama atenção por outro motivo. O crescimento não veio de um único tipo de crime, mas de praticamente todas as categorias monitoradas, com destaque para sanções econômicas burladas, grandes hacks, golpes financeiros e serviços especializados de lavagem de dinheiro.
Do crime isolado à indústria on-chain
A evolução do criptocrime pode ser entendida em ondas. Nos primeiros anos, entre 2009 e 2019, predominavam ações pontuais, conduzidas por hackers individuais ou pequenos grupos. A partir de 2020, o cenário mudou. Organizações criminosas passaram a operar de forma estruturada, oferecendo serviços completos, como infraestrutura on-chain, intermediação financeira e até suporte técnico para outros criminosos.
Em 2025, essa lógica atingiu um novo estágio. Estados nacionais passaram a explorar as mesmas ferramentas criadas originalmente para o crime organizado digital, seja para financiar operações, seja para contornar restrições impostas pelo sistema financeiro tradicional.
Estados nacionais entram no centro do problema
Um dos pontos mais sensíveis do relatório é o avanço da atuação estatal em atividades ilícitas on-chain. Grupos ligados à Coreia do Norte foram responsáveis por roubos que somaram cerca de US$ 2 bilhões (aproximadamente R$ 11 bilhões) em 2025. Boa parte desse valor veio de megahacks, incluindo o maior roubo da história do setor, estimado em quase US$ 1,5 bilhão (cerca de R$ 8 bilhões) em um único ataque.
A Rússia também aparece com destaque. Após mudanças regulatórias internas, iniciativas voltadas ao uso de criptoativos para contornar sanções internacionais ganharam escala. Um token lastreado no rublo movimentou mais de US$ 93 bilhões (cerca de R$ 503 bilhões) em menos de um ano, evidenciando como ativos digitais podem ser usados como alternativa a sistemas financeiros bloqueados.
Já redes associadas ao Irã e a seus aliados regionais ampliaram o uso de criptomoedas para lavagem de dinheiro, venda ilícita de bens e financiamento de grupos armados, movimentando cifras bilionárias ao longo dos últimos anos.
Stablecoins dominam o crime em cripto
Outro dado central é a consolidação das stablecoins como principal instrumento das transações ilícitas. Em 2025, esses ativos responderam por cerca de 84% de todo o volume ilegal identificado. A preferência não é aleatória. Stablecoins oferecem menor volatilidade, facilidade de transferência internacional e alta liquidez, características ideais tanto para criminosos quanto para atores estatais que buscam previsibilidade financeira.
Na prática, elas funcionam como o “dinheiro digital” do submundo cripto, permitindo que valores elevados circulem rapidamente entre jurisdições, com menos atrito do que no sistema bancário tradicional.
Redes chinesas e infraestrutura do crime
O relatório também aponta a ascensão de grandes redes de lavagem de dinheiro com origem na China, que passaram a dominar partes importantes do ecossistema ilícito. Essas organizações oferecem serviços de ponta a ponta, desde a conversão de criptoativos até a ocultação da origem dos recursos, atendendo golpes, fraudes, ransomware e até operações ligadas a Estados nacionais.
Paralelamente, fornecedores de infraestrutura ilícita ganharam protagonismo. Plataformas de hospedagem, serviços de proteção contra derrubadas e estruturas técnicas resistentes a sanções se tornaram peças-chave para sustentar operações criminosas em larga escala.
Quando o crime digital encontra o mundo real
Um aspecto cada vez mais preocupante é a conexão entre atividades on-chain e crimes violentos. Casos de extorsão física, sequestros e coerção direta vêm crescendo, com criminosos exigindo pagamentos em criptoativos. Em muitos episódios, o momento do ataque coincide com períodos de alta no mercado, maximizando o valor exigido das vítimas.
Esse cruzamento entre o digital e o físico reforça a percepção de que crimes envolvendo criptomoedas deixaram de ser um problema restrito à internet.
Um desafio global em expansão
Mesmo representando uma fração do uso total de criptoativos, o avanço do crime on-chain em 2025 elevou o nível de alerta entre governos, reguladores e empresas do setor. A profissionalização do ecossistema ilícito, somada à entrada de Estados nacionais nesse ambiente, transformou o criptocrime em um tema de segurança econômica e geopolítica.
O cenário indica que o combate a essas atividades exigirá cooperação internacional, tecnologias de monitoramento mais sofisticadas e regras mais claras. Em um mercado que cresce rápido e cruza fronteiras com facilidade, o desafio não é apenas conter o crime, mas preservar a credibilidade e a integridade de todo o ecossistema cripto.